Pielonefrite: infecção urinária pode chegar ao rim?

Entenda como uma infecção urinária pode chegar ao rim mesmo sem ardência, quais sintomas sugerem pielonefrite e quando é importante procurar atendimento médico.

DOENÇAS E CONDIÇOES

8/23/20268 min ler

Mulher com dor na região lombar ao lado de ilustração anatômica dos rins, ureteres e bexiga, represe
Mulher com dor na região lombar ao lado de ilustração anatômica dos rins, ureteres e bexiga, represe

Por Dra. Andrea Woolf, médica e professora de Educação Física

Publicado em: 23 de agosto de 2026

Você pensa em infecção urinária e provavelmente imagina aquela ardência para fazer xixi, vontade de ir ao banheiro toda hora e aquela sensação de que a bexiga nunca esvazia direito.

Aí uma pessoa começa com febre, calafrios e uma dor forte de um lado das costas — mas não sente ardência nenhuma.

Infecção urinária? No rim?

Sim.

Uma infecção pode atingir o rim mesmo sem passar por aquele roteiro clássico que todo mundo espera. Na verdade, as diretrizes descrevem a pielonefrite com ou sem os sintomas típicos de cistite, como ardência, urgência e aumento da frequência urinária.

Então pera aí… deixa eu te explicar o caminho dessa bactéria, o que muda quando ela chega ao rim e, principalmente, quais sinais não são bons para ficar esperando em casa.

Prefere assistir? Eu também expliquei esse assunto em vídeo:

Primeiro: o que é pielonefrite?

Pielonefrite é uma infecção do rim, geralmente causada por bactérias.

Para entender, pensa no trato urinário como um caminho contínuo.

A urina é produzida nos rins, desce pelos ureteres, fica armazenada na bexiga e sai pela uretra.

Quando a infecção está principalmente na bexiga, estamos falando daquela situação que muita gente conhece como cistite.

Na pielonefrite, a história foi mais para cima: a infecção atingiu um ou os dois rins.

Na maioria dos casos, ela começa no trato urinário inferior e as bactérias sobem da bexiga pelos ureteres até chegar ao rim. Existem outras formas de uma infecção chegar ao rim, mas essa via ascendente é a mais comum.

E é justamente aí que o quadro muda de figura.

Como uma bactéria consegue “subir” da bexiga até o rim?

Ela não precisa abrir caminho nenhum. O caminho já existe.

Os ureteres são os tubos que ligam cada rim à bexiga.

Normalmente, nosso sistema urinário tem vários mecanismos que dificultam a permanência e a subida de bactérias. O próprio fluxo da urina ajuda nessa defesa.

Mas algumas bactérias conseguem aderir ao revestimento do trato urinário, multiplicar-se e avançar pelo sistema.

Quando a infecção deixa de estar restrita à bexiga e alcança o tecido renal, o organismo tende a responder de uma forma mais sistêmica.

É por isso que o quadro de pielonefrite costuma chamar atenção por sintomas como febre, calafrios, dor nas costas ou na lateral do corpo, náusea e vômitos.

Mas uma infecção urinária não deveria arder antes?

Não necessariamente.

Esse é provavelmente o ponto mais importante deste artigo.

Ardência ao urinar é um sintoma possível de infecção urinária. Não é uma etapa obrigatória pela qual toda infecção precisa passar.

A pielonefrite pode aparecer acompanhada dos sintomas típicos da bexiga — ardência, urgência, vontade de urinar várias vezes — ou sem eles. A própria diretriz europeia de infecções urológicas descreve pielonefrite com febre, calafrios, dor no flanco, náusea ou vômito com ou sem sintomas típicos de cistite.

Então aquela lógica de:

“Não está ardendo para fazer xixi, logo não pode ser infecção urinária”

não é segura.

E isso importa porque, se a pessoa estiver esperando a ardência aparecer para considerar uma infecção urinária, pode ignorar justamente os sinais de que o problema já está mais alto no trato urinário.

O que muda quando a infecção chega ao rim?

Na cistite, a infecção está localizada no trato urinário inferior.

Quando o rim é atingido, já estamos falando de uma infecção urinária alta, com potencial de causar uma resposta inflamatória mais importante no organismo.

Os sintomas que aumentam a suspeita de pielonefrite incluem:

  • febre;

  • calafrios;

  • dor nas costas ou no flanco, geralmente mais para a lateral e abaixo das costelas;

  • náusea ou vômitos;

  • mal-estar importante;

  • além de ardência, urgência ou aumento da frequência urinária, quando esses sintomas estão presentes.

E aqui tem uma diferença importante.

Dor nas costas sozinha não significa infecção no rim.

Dor muscular, problemas de coluna, pedras nos rins e várias outras condições podem causar dor nessa região.

Da mesma forma, febre sozinha não fecha diagnóstico de pielonefrite.

O médico junta a história, o padrão dos sintomas, o exame físico e os exames necessários para entender o que está acontecendo.

Pielonefrite pode virar sepse?

Pode.

Isso não significa que toda pielonefrite vá evoluir para sepse. A maioria das pessoas tratadas adequadamente não chega a esse ponto.

Mas uma infecção renal pode, em alguns casos, permitir que bactérias ou a resposta à infecção afetem o organismo de forma sistêmica e evoluam para um quadro grave.

O NIDDK, instituto ligado aos National Institutes of Health dos Estados Unidos, destaca a sepse como uma complicação incomum, mas potencialmente fatal, da infecção renal.

Por isso a combinação de febre, dor no flanco ou nas costas e piora do estado geral não é uma situação boa para “vou esperar uns dias para ver”.

Não é para entrar em pânico.

É para procurar avaliação.

Como o médico descobre se realmente é pielonefrite?

Não existe um único sintoma ou um único número no exame que sozinho responda tudo.

A avaliação começa pela história e pelo exame físico.

O exame de urina ajuda a procurar sinais de inflamação e infecção, como leucócitos, sangue e nitrito. Sangue na urina também pode aparecer em algumas infecções urinárias, embora tenha várias outras causas e precise ser interpretado no contexto.

Na suspeita de pielonefrite, a urocultura é especialmente importante porque procura identificar a bactéria e ajuda a saber a quais antibióticos ela é sensível. Diretrizes recomendam cultura de urina e teste de sensibilidade nos casos de pielonefrite.

Exames de sangue também podem ser necessários, principalmente quando a pessoa está mais doente ou existe preocupação com complicações.

E não, todo mundo com pielonefrite não precisa automaticamente fazer uma tomografia.

Exames de imagem entram principalmente quando existe suspeita de pedra ou obstrução do trato urinário, alteração da função renal, piora clínica, complicações ou falta de resposta adequada ao tratamento.

E como é feito o tratamento?

Pielonefrite bacteriana precisa de antibiótico.

Só que isso não significa pegar aquele antibiótico que sobrou na gaveta da última infecção urinária.

A escolha depende de vários fatores: gravidade do quadro, possibilidade de gravidez, alergias, uso recente de antibióticos, bactérias resistentes na região, resultados anteriores de culturas e, depois que a urocultura fica pronta, da sensibilidade daquela bactéria.

E tem outro detalhe importante: nem todo antibiótico usado para uma infecção simples da bexiga é adequado para tratar uma infecção que chegou ao rim.

Algumas pessoas conseguem fazer tratamento em casa com antibiótico por via oral e acompanhamento.

Outras precisam de hospitalização e antibióticos intravenosos, especialmente quando estão muito doentes, não conseguem manter líquidos ou medicamentos por causa dos vômitos, têm sinais de sepse ou apresentam alguma complicação.

Então não é um bom momento para escolher tratamento por conta própria.

Existe alguma situação que merece atenção ainda maior?

Sim.

Uma das coisas que mais preocupam numa infecção urinária alta é a combinação de infecção + obstrução.

Imagina uma pedra bloqueando a saída da urina e, atrás dela, um sistema urinário infectado.

Essa situação pode evoluir rapidamente e pode exigir não apenas antibiótico, mas também uma intervenção para desobstruir o trato urinário. A diretriz europeia destaca a importância de diferenciar rapidamente a pielonefrite obstrutiva por causa do risco de urossepse.

Também merecem avaliação especialmente cuidadosa pessoas grávidas, pessoas com alterações estruturais do trato urinário, cálculos, imunossupressão e algumas outras condições que aumentam o risco de complicações.

Na gravidez, pielonefrite recebe atenção especial porque pode trazer riscos tanto para a gestante quanto para a gestação.

Quando procurar atendimento?

Se você está com febre associada a dor nas costas ou na lateral do corpo, especialmente se vier junto com calafrios, náusea, vômitos, sintomas urinários ou mal-estar importante, procure avaliação médica.

Não espere aparecer ardência para decidir que “agora sim parece infecção urinária”.

Procure atendimento com mais urgência se houver:

  • vômitos persistentes ou incapacidade de tomar líquidos;

  • piora rápida;

  • dor muito intensa;

  • gravidez;

  • suspeita ou histórico de obstrução urinária ou pedra;

  • fraqueza intensa ou estado geral muito ruim.

E procure emergência imediatamente se a pessoa estiver confusa, desmaiar, tiver dificuldade para respirar, ficar muito sonolenta, apresentar sinais de circulação ruim ou deterioração importante do estado geral. Esses podem ser sinais de uma infecção sistêmica grave.

No Brasil, em situação de emergência, o SAMU pode ser acionado pelo 192.

O que fazer agora?

Se há suspeita de pielonefrite, a lógica é simples:

não tente confirmar o diagnóstico sozinho e não comece antibiótico que sobrou de outro tratamento.

Observe quando os sintomas começaram, se há febre, calafrios, dor, vômitos e alterações urinárias e procure atendimento para que o quadro seja avaliado corretamente.

E, se já começou tratamento prescrito e está piorando, ficou muito mal ou não começa a melhorar no período orientado pelo profissional, precisa ser reavaliado. O NICE orienta nova avaliação quando os sintomas pioram a qualquer momento ou não começam a melhorar após cerca de 48 horas de antibiótico.

Perguntas frequentes

Pielonefrite pode acontecer sem ardência ao urinar?

Pode.

A ardência é um dos sintomas possíveis de infecção urinária, mas não é obrigatória. Pielonefrite pode acontecer com ou sem os sintomas típicos de cistite.

Dá para ter pielonefrite sem perceber uma infecção na bexiga antes?

Dá.

Muitas infecções renais começam no trato urinário inferior e sobem até o rim, mas os sintomas da bexiga podem ser discretos ou nem estar presentes quando o quadro renal aparece.

Dor nas costas significa que a infecção chegou ao rim?

Não.

Dor nas costas tem muitas causas. Na pielonefrite, a dor costuma aparecer mais no flanco ou na região das costas abaixo das costelas e frequentemente vem acompanhada de febre ou outros sintomas sistêmicos.

O contexto é que faz diferença.

Toda pielonefrite precisa de internação?

Não.

Pessoas clinicamente estáveis podem, em determinadas situações, ser tratadas fora do hospital. Quadros graves, vômitos importantes, complicações ou necessidade de antibiótico intravenoso podem exigir internação.

Beber muita água consegue “limpar” a infecção do rim?

Não.

Manter hidratação adequada pode ser importante, especialmente para evitar desidratação, mas água não substitui antibiótico quando existe uma pielonefrite bacteriana.

No fim das contas

A parte mais traiçoeira dessa história é achar que toda infecção urinária precisa avisar da mesma maneira.

Nem sempre avisa.

Você pode ter ardência, vontade de urinar toda hora e desconforto na bexiga.

Mas uma infecção que chegou ao rim pode chamar atenção principalmente por febre, calafrios, dor nas costas ou no flanco, náusea e mal-estar — mesmo sem aquela ardência clássica.

Então não é para olhar qualquer dor nas costas e pensar “meu rim está infectado”.

Mas também não é para pensar:

“Não ardeu, então não pode ser infecção urinária.”

Pode.

E, quando existe suspeita de que a infecção atingiu o rim, vale avaliar cedo, porque o tratamento adequado costuma resolver o problema e ajuda a evitar complicações.

Faz sentido?

Sobre a autora

Dra. Andrea Woolf é médica formada pela Universidad Nacional de Rosario e professora de Educação Física. Criadora do Explica, Doutora!, dedica-se a traduzir temas de saúde em uma linguagem simples, humana e baseada em evidências, para que mais pessoas consigam entender melhor o próprio corpo e tomar decisões com mais segurança.

No Explica, Doutora!, une formação médica, didática e comunicação acessível para explicar doenças, sintomas, exames, medicamentos, prevenção e bem-estar sem “mediquês” desnecessário.

Aviso médico

As informações apresentadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e informativa e não substituem consulta médica, diagnóstico, tratamento ou acompanhamento por um profissional de saúde. Nunca inicie, interrompa ou substitua um tratamento sem orientação de um profissional habilitado.

Referências bibliográficas

  1. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Urological Infections. Diretriz atual sobre diagnóstico e tratamento de pielonefrite e infecções urinárias sistêmicas. EAU Guidelines on Urological Infections

  2. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK). Kidney Infection (Pyelonephritis). NIDDK — Kidney Infection (Pyelonephritis)

  3. NIDDK. Symptoms & Causes of Kidney Infection (Pyelonephritis). NIDDK — Symptoms & Causes

  4. NIDDK. Diagnosis of Kidney Infection (Pyelonephritis). NIDDK — Diagnosis of Kidney Infection

  5. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Pyelonephritis (acute): antimicrobial prescribing — NG111. NICE — Acute pyelonephritis recommendations

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